Segunda-feira, 23 de julho, 5h30 da manhã, a odisséia para o grande dia da apresentação ao serviço militar começava. No documento, o horário oficial era chegar às 6h da manhã. Cheguei por volta das 6h15 no Tiro de Guerra em Caruaru. Durante o caminho, um medo me acompanhava, principalmente por chegar atrasado e levar uma bronca de algum sargento conhecido pela fama de durão. Mas, logo quando cheguei não teve nada disso, fui surpreendido por uma fila enorme, com dezenas de jovens, uns mais novos, outros mais velhos, um misto de pais de família, estudantes e desempregados. O atendimento só começaria a partir das 8h. A primeira pegadinha do exército durante a seleção.
Antes de continuar, é inevitável não citar os milhares de comentários que eu ouvi e que me deixaram com bastante medo da seleção do exército, causando quase uma aversão. Primeiro disseram que eles não perdoavam ninguém, todo mundo que fosse iria servir. Segundo que eles eram durões, até bicho era bem mais tratado lá dentro, os pobres dos candidatos ao serviço militar eram humilhados na apresentação. Claro, ouvi também a clássica, de que eu podia me preparar porque iria ficar pelado na frente de todo mundo, forçado a abaixar, levantar, correr, além de ser totalmente zombado e tudo isso: pelado, o que não é muito agradável. Durante a fila, todas essas lendas, quase urbanas, foram ditas. Cada um tinha uma história de um primo, irmão, amigo de amigo que sofreu bastante no dia da apresentação do serviço militar, realmente um medo rondava aquele lugar.
Continuando... eu tive a certeza que iria demorar para sair daquela fila e entrar para saber logo do resultado, se seria dispensado ou selecionado para servir ao exército diariamente por quatro horas no período de seis meses ou um ano. Os comentários eram tantos, cada um com uma dúvida e uma história mais horripilante do exército que a outra, todos apreensivos. Foi aí, que resolvi colocar o meu fone de ouvido e ser embalado durante algumas horas pela minha set list do celular. Chico, Jeneci, Lira, e outros cantores me acalmaram e acompanharam durante horas e horas, naquela fila. Me fez até esquecer o que eu realmente esperava, e em certos momentos me deixar calmo para saber logo o final daquele dia.
Algumas vezes os sargentos passavam com cara de mau, principalmente para alguns candidatos que perturbavam as menininhas que passavam pelo o local assustadas com a quantidade de meninos em um só lugar. Os aprendizes, que já fazem parte do exercito, não perdiam a oportunidade de amedrontar e abusar do poder de está vestindo a farda, hora e outra passavam criticando alguns presentes na fila, principalmente por estarem usando colares, brincos, segundo eles “apetrechos femininos proibidos no exército”.
Foram cerca de quase 12h de fila, sai por volta das 16h. Gosto de filas, gosto de ouvir as pessoas. Eram histórias de jovens casados que temiam ser selecionados e não ter tempo para trabalhar. Garotos que já trabalhavam. E até alguns, que tinha esperança de serem selecionados, por não fazerem nada em casa, seria uma boa ocupação.
Por volta das 15h, quando depois de várias voltas na fila e ainda sem comer nada, cheguei na porta do tiro de guerra. Faltava apenas um passo para entrar, ser atendido e saber o meu futuro de aproximadamente um ano. Cheguei, apresentei os meus documentos, e logo vi que meu nome não estava na lista dos dispensados, até porque eu estava em débito com o serviço militar, pois não teria me apresentado na idade certa, infelizmente por conta de descuido. Fui recomendado a entrar, sentar e esperar junto a outros jovens que já estavam por lá.
Confesso, que não é coisa de outro mundo. Não são bichos, são pessoas normais, não vou dizer que são um exemplo de sensibilidade e simpatia, mas também não são como os colegas alertaram. Educados na medida que se permitem ser, afinal tem que demonstrar serem durões.
Após ser convidado a esperar, demorei um pouco mais que outros, mas finalmente fui atendido e mandado para a sala de exames. Lá, para a minha surpresa o médico era muito simpático, pediu que todos que estavam na sala, um grupo de aproximadamente dez jovens, ficassem apenas de cueca. Nada demais, jovens de cueca para um exame médico, como pesagem, medição e um curto exame de vista. Fomos bem tratados e pedidos gentilmente para sair da sala.
Por fim, esperei mais um pouco, o sargento veio com alguns nomes, entre eles o meu, e disse o que eu mais queria ouvir: vocês estão dispensados. Motivo? Excesso de contingência. Para quem não sabe é quando o número de candidatos ultrapassa a do tiro de guerra. Agora, basta retornar, fazer o juramento da bandeira e pronto, terei em mãos a reservista oficial.
Um dia bem cansativo, que gerou muita fome, fraqueza e dor de cabeça. Mas, tudo por uma boa causa. Sei que alguns fazem esse tipo de procedimento com mais facilidade, tem oportunidade de fugir dos protocolos. Mas não trocaria isso por uma ‘facilidade’. Foi bastante proveitoso passar o dia nessa fila. No futuro poderei dizer como foi um dia no serviço militar.. Afinal, até que não é um bicho de sete cabeças.
Que me perdoem os mais velhos que acham que para ser homem tem que passar pelo o serviço militar. Me perdoem quem serviu ao exército, vocês têm o meu respeito. Que me perdoem quem acha que democracia é servir obrigatoriamente. Mas, na minha opinião, acho que posso ajudar muito mais o meu país, contribuir um pouco, com outras funções. Serei mais útil, sem dúvida. Meu patriotismo vai além.
Ratá-tá tá tá...
Tatá-rá tá tá...
Ratá-tá tá tá...
Tatá-rá tá tá...
Ratá-tá tá tá...
Tatá-rá tá tá...
Ratá-tá tá tá...


2 comentários:
Democracia disfarçada e patriotismo obrigatório.
Ótimo texto Bruno, Parabéns!
Bruno querido amigo!
Parabéns pelo texto.
Concordo com você em tudo,
quando meu filho foi se apresentar
também fiquei muito preocupada,pois
não queria que ele service,
por sorte ele se livrou.
E pode escolher seu futuro,hoje
formado em administração de empresas e contabilidade!
Tenho muito orgulho deles.
Desejo a você amigo sucesso sempre
pois você merece!!!
É um exemplo de cidadão,batalhador,honesto e um amigo muito querido por todos!
Receba o meu carinho e Forte Abraço
Que Deus continue te abençoando junto aos seus,peço desculpas se me estendi pois você sabe vou digitando tudo o que me vem a mente rs,ando ausente devido os meus trabalhos de artesanatos,mas não me esqueço dos meus amigos(as)obrigada pelo convite,fiquei muito feliz em ler o seu texto etc.
Boa noite!!! Bruno!!!
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